O fantasma que assombrou Charles Chaplin

O primeiro livro sobre Charlie Chaplin ao qual eu tive contato chama-se O PENSAMENTO VIVO DE CHAPLIN, da Editora Martin Claret. Achei ano passado, por acaso, num sebo no centro da cidade. Relendo o mesmo livro, há alguns dias, daparei-me com uma passagem muito interessante, na qual relata a experiência de Chaplin com um "fantasma". Sobre esse assunto Chaplin comenta:


"A propósito de esoterismo, um ano antes de ser construída minha residência de Beverly Hills, recebi uma carta anônima que se dizia escrita por um vidente, ao qual aparecera em sonho uma casa erguida num topo de colina, com um gramado à frente que terminava em ponta, como a proa de uma embarcação, casa de quarenta janelas e amplo salão de música, este de teto bem alto. Dizia também que aquele terreno era lugar sagrado em que, dois mil anos antes, as velhas tribos indígenas praticavam sacrifícios humanos. A casa era mal-assombrada e nunca deveria ficar às escuras. Prevenia-me ainda de que só haveria aparições se eu ficasse sozinho à noite e de luzes apagadas.
Não tomei a carta a sério; pareceu-me maluco e só a guardei na gaveta por ser coisa excêntrica e engraçada. Mas dois anos após, quando mexia em meus papéis, dei com ela e a reli. Bem estranhamente, a descrição da casa e do gramadado era fiel. Eu nunca havia contado as janelas e resolvi fazê-lo. Espantei-me ao verificar que eram exatamente quarenta.
Embora sem crer em fantasma, resolvi tentar a experiência. Como era quarta-feira, noite de folga para a criadagem, a casa ficou vazia; portanto, jantei fora. Imediatamente depois do jantar, voltei e fui ao salão do órgão, que era comprido e estreito como a nave de uma igreja, com o teto em estilo gótico. Depois de arriar as cortinas, apaguei todas as luzes. Então, encaminhando-me às apalpadelas para uma poltrona, ali fiquei sentado em silêncio durante pelo menos dez minutos. A escuridão expressa excitou-me os sentidos e imaginei formas imprecisas que flutuavam diante dos meus olhos; mas, raciocinando, concluí que era o luar infiltrando-se por uma pequena abertura das cortinas e refletindo-se num frasco de cristal lapidado.
Juntei bem as bandas da cortina e as formas flutuantes desapareceram. Então fiquei de novo na expectativa no escuro; deve ter sido por uns cinco minutos. Como nada acontecesse, comecei a falar em voz audível: "Se há espíritos aqui, façam-me o favor de se manifestar". Esperei por algum tempo, e nada. Então continuei: "Não há um meio qualquer de comunicação? Talvez com um sinal... uma pancadinha, ou, não sendo assim, através da minha mente, de modo que me leve a escrever alguma coisa; ou quem sabe, uma corrente de ar frio talvez possa indicar uma presença".
Sentei-me por mais uns cinco minutos; entretanto, não houve nem corrente de ar, nem manifestação de qualquer espécie. O silêncio era de ensurdecer - a minha mente esvaziava por completo. Afinal desisti, achando ser inútil, e acendi uma das luzes. Então, entrei na sala de estar, cujas cortinas não tinham sido arriadas; esboçando-se ao luar, lá estava o piano. Sentei-me e comecei a correr os dedos sobre o teclado. Por fim, dei com uma nota que me enlevou, e repeti-a várias vezes, até vibrar toda a sala. Por que eu fazia isso? Talvez fosse fria manifestação. Continuei a repetir a mesma nota. De súbito, uma faixa de luz branca enlaça-me pela cintura; num susto, pulei da banqueta e fiquei de pé, o coração batendo como um tambor.
Quando voltei à calma, tentei raciocinar. O piano estava a um canto da sala, junto à janela. Então compreendi: o que eu pensara ser uma fita de ectoplasma fora apenas a luz do farol de um automóvel que descia a encosta da montanha. Para convencer-me, voltei ao piano e bati a mesma nota diversas vezes. Lá na outra extremidade da sala de estar, havia um corredor em penumbra e, ao fim deste, a porta da sala de jantar. Num relance via porta abrir-se e alguma coisa sair da sala de jantar e passar pelo corredor - um monstrinhozinho grotesco, parecendo um anão, tendo em torno dos olhos uns círculos brancos de palhaço - a encaminhar-se, gingando, para o salão do órgão. Antes que eu pudesse virar o rosto, já se fora. Horrorizado, levantei-me e tentei segui-lo, mas havia desaparecido. Crendo que fosse ilusão, causada por mero tremer de pestana, devido ao meu estado de extremo nervosismo, tornei a tocar piano. E como nada mais sucedesse, resolvi ir para a cama.
Enfiei-me no pijama e entrei no quarto de banho. Quando acendi a luz, lá estava o fantasma plantado dentro da banheira, olhando para mim! Pulei para fora do quarto de banho, quase como num mergulho. Era um gambá! O mesmo camaradinha que eu tinha visto de esguelha; apenas lá embaixo me parecera muito maior.
De manhã, o mordomo colocou o estonteado animalzinho numa gaiola e, por fim, ele já se tornara um bicho de estimação. Mas, um dia sumiu e nunca mais o vimos".
Confira algumas imagens da casa, citada no texto:





Referência:

O Pensamento Vivo de Chaplin.
Edição Ilustrada. Martin Claret Editores - 1984.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Era Charles Chaplin ateu?

O caso do roubo do túmulo de Chaplin (1978)

A questão de gênero no filme Tempos Modernos (Chaplin, 1936)