Era Charles Chaplin ateu?

Apesar de encontrarmos várias referências na internet afirmando tal posição atribuída à Charles Chaplin, tais fontes carecem de legitimidade.

Uma organização ateísta brasileira divulgou há um tempo um cartaz (sendo disseminado principalmente nas redes sociais, a exemplo do Facebook) que mostrava duas fotos, lado a lado, onde, de um lado está Charles Chaplin (como ateu) e do outro, Adolf Hitler (como católico). Logo acima, a frase: "Religião não define caráter". Claramente vemos a proposta da entidade de afirmar que, ao contrário de Chaplin - que supostamente era ateu e não cometeu tanto mal - Hitler, que se dizia religioso, foi o responsável por tamanha maldade para muitos.

Imagem divulgada pela internet

Mas há um equívoco nessa afirmação, sobretudo quando se atribui a figura de Chaplin ao ateísmo. Quanto a Hitler, deixou evidências que foi criado e batizado na igreja católica - ainda que a partir do Nazismo, tenha criado sua própria religião (ou ideologia).
Não propomos aqui fazer juízo de valores, ou seja, acusar ou defender qualquer posição religiosa ou ideológica, entretanto, registramos uma nova abordagem de acordo com o próprio histórico deixado pelo artista.
Em nenhum momento da sua história - registrada ou não em sua biografia - Charles Chaplin se coloca como ateu. Isso é fato.
No portal Entre Textos, Miguel Carqueija nos sugestiona para um lado um tanto cristão do artista, principalmente quando observam-se alguns dos seus vários filmes:
A obra de Chaplin, de forma implícita, já transmite humanismo cristão. Mas há alguma coisa explícita. Num clássico de 1921, “O garoto” (The kid), podemos assistir uma cena tocante: Carlitos incentivando o garotinho (que ele encontrara como um bebê abandonado, e adotara informalmente) a rezar as orações da noite.
Em “O grande ditador” (“The great dictator”, 1940) o protagonista, um barbeiro judeu (também interpretado por Chaplin e que guarda traços do vagabundo), declara no célebre discurso final: “No décimo sétimo capítulo do Evangelho de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem — não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens.” Noutro trecho, em tom de crítica, observa: “nossos conhecimentos tornaram-nos céticos” (isto é, descrentes). 
Em outra ocasião, numa entrevista concedida em 1940, diante do questionamento de críticos que se preocuparam em tentar desvendar se Chaplin era de origem judaica, ele respondeu: "Eu me sentiria orgulhoso de ser judeu, mas não possuo uma gota sequer de sangue judeu". Teria dito outro dia "As duas personagens que eu mais desejaria recriar em um filme seriam Napoleão e Jesus Cristo".
Em "O Pensamento Vivo de Chaplin", publicação muito conhecida que reúne alguns dos principais pontos sobre a vida de grandes mestres do pensamento mundial, a exemplo de Einstein, Freud, Gandhi, Marx, Netzsche, Darwin, Buda, entre outros, encontramos uma passagem interessante, na qual Chaplin diz:
À medida que vou envelhecendo, mais me preocupa a questão da fé. Ela está em nossa vida bem mais do que supomos e inspira as nossa ações bem mais do que a imaginamos. Creio que a fé é precursora de todas as nossas idéias. Sem fé não teríamos criado hipóteses, teorias, ciência ou matemática. Penso que a fé é uma extensão do espírito. É a chave que abre a porta do impossível. Negar a fé é refutar a sim mesmo e ao espírito que gera todas as nossas forças criadoras.
Em sua autobiografia, intitulada de "Minha Vida" (Editora José Olympio, 2011 - 15ª edição, Chaplin faz a seguinte consideração:

Não posso crer que a nossa existência não tenha sentido, que seja mero acidente, como nos querem convencer alguns cientistas. A vida e a morte são determinadas demais, por demais implacáveis, para que sejam puramente acidentais.
Os acasos da vida e da morte – o gênio ceifado na flor da idade, sublevações mundiais, hecatombes e catástrofes -, tudo isso pode parecer sem propósito e significação. Mas o próprio fato de que tais coisas acontecem demonstra um desígnio firme e preciso, acima do que pode compreender a nossa inteligência condicionada a três dimensões.

(...)

Não sou um espírito religioso no senso dogmático. Minha posição é comparável à de Macaulay, o qual escreveu que os mesmos problemas religiosos hoje em debate já eram discutidos, com igual acuidade filosófica, no século XVI e que, apesar de todo o conhecimento acumulado e todo o progresso científico, nenhum filósofo, seja do passado ou do presente, trouxe maiores luzes sobre aqueles problemas.
Não creio em nada e de nada descreio. O que concebe a imaginação aproxima-nos tanto da verdade como o que pode provar a matemática. Nem sempre se chega à verdade por meio da razão; esta nos prende a um esquema geométrico de pensamento que demanda lógica e credibilidade.

Revisitando a biografia, bem como relatos oficiais deixados pelo artista, é possível verificar que ele deixa clara sua posição em relação à religiosidade. "Jamais fui religioso", teria dito certa vez. Entretanto, também não mencionou em nenhum momento acerca de ser ateu. Demais tentativas de "enquadrá-lo" em determinada posição ideológica é mera especulação.


"POR SIMPLES BOM SENSO, NÃO ACREDITO EM DEUS. EM NENHUM"

Esta frase parece ter sido mencionada pela primeira vez no Manual do Ateísta Perfeito, escrito pelo mexicano Eduardo Garcia Del Rio, em 1989, sem indicar qualquer fonte original, o que faz esta citação não confiável. A frase tem sido amplamente divulgada pelos ateus para tentar provar que Chaplin também o foi. No entanto, tendo em conta que o próprio Chaplin escreveu em sua autobiografia, quando ele tinha 75 anos, e o que seus familiares escreveu sobre ele, chamar Chaplin de ateu parece insustentável.

De acordo com seu filho, Charles Chaplin, Jr., em seu livro "Meu Pai, Charlie Chaplin" (inédito no Brasil), páginas 239-240, Chaplin não era um ateu, ele cita-o dizendo: "Eu não sou um ateu" ... "Lembro-me de ele dizer em mais de uma ocasião. " Eu sou definitivamente um agnóstico. Alguns cientistas dizem que se o mundo parasse de girar, nós todos iríamos nos desintegrar. Mas o mundo continua em curso. Algo deve estar segurando a todos nós no lugar. Alguma Força Suprema. Mas o que é, eu não poderia te dizer. "

Referências:

CHAPLIN, Charles. Minha Vida. 15ª edição. Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 2011.
CLARET, Martin. O Pensamento Vivo de Chaplin. São Paulo, Martin Claret Editores, 1984.

Comentários

  1. Para bom entendedor poucas palavras bastam.

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    1. Pois é... Tá bem claro alí, não creio em nada.
      Ele foi no máximo, agnóstico.
      Mas não é, todo agnóstico um ateu?

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  2. Hitler foi católico no começo de sua vida, e na adolescência. Depois que começou a criar sua ideologia, deixou a religião para criar a sua própria. Pelo o que eu li a respeito, Hitler nunca se pronunciou a respeito do cristianismo, mas ele e seus comandantes repudiavam o cristianismo tanto quanto o judaísmo, principalmente o catolicismo. Hitler era na verdade um neopagão, se interessava por ocultismo, e mitologias, principalmente as mitologias germânicas antigas, das quais ele usou para argumentar a suposta superioridade da "raça" ariana. Mas cristão amigo, pelo menos o Hitler ditador, ele não era.

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  3. Ser ateu? Qual o problema disso. Ateu e simplesmente quem não acredita na existência de um "ser superior", não tem nada a ver com o caráter, ateus não sao criminosos, assassinos, devassos. Digo que muitas vezes sao mais humanos que os crentes.

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