Um Natal com Charles Chaplin


Já imaginou como seria participar de uma noite de Natal com a família Chaplin?

Em nosso post especial de Natal, vamos proporcionar essa experiência à vocês, a partir de relatos de um convidado que testemunhou o estilo de confraternização da família do artista. As descrições presentes aqui, foram retiradas de publicações, compiladas no blog "Discovering Chaplin". 

Para iniciar a nossa viagem no tempo, é interessante perceber de que forma Chaplin concebia as festas de Natal. Aqueles que conhecem um pouco da história de Charles Chaplin, sabem que nem sempre ele teve natais felizes. Sua infância, na fria Londres do século XIX, proporcionou experiências traumáticas que ficaram gravados por toda a sua vida. Por ironia do destino, foi justamente numa noite de Natal, em 1977, que Charlie Chaplin respirou pela última vez, em sua mansão em Vevey, na Suíça.

Mas há um momento, em especial, que Charlie recorda com amargura. Ele relatou esse fato no livro "A Comedian See the World", na ocasião da sua visita à Londres, em 1931, quando voltou ao orfanato em que viveu e, sentado na mesa do refeitório, a mesma em que comera tantas vezes junto às demais crianças daquele lugar, ele descreve:

Como me lembro bem, num dia de Natal, sentado naquele mesmo lugar, chorando lágrimas copiosas. Um dia antes eu tinha cometido algum descumprimento das regras. Quando chegamos na sala de jantar para o jantar de Natal ,que estavam a ser dadas duas laranjas e um saco de doces.
Lembro-me de quão animado eu estava esperando a minha vez. Como alegre e brilhante as laranjas estavam em contraste com o ambiente cinza. Nós nunca víamos laranjas, mas uma vez por ano e que foi no Natal. Estou especulando o que vou fazer com a minha. Vou guardar a casca e os doces vou comer uma por dia. Cada criança é apresentada com o tesouro quando ele entra na sala de jantar. Por último é a minha vez. Mas o homem põe-me de lado. "Oh, não, você vai ficar sem, o que você fez ontem." E ali, naquele lugar à quarta mesa, chorei amargamente. As crianças estavam mais humanas do que os atendentes foram e assim os pequenos na nossa mesa contribuíam, com um doce cada, e assim fiz a minha bolada.
Charlie Chaplin, "Um Comediante vê o mundo, Parte I", companheiro de uma mulher em casa, Septenber de 1933

Sendo já adulto - e pai de algumas crianças, eis que chegamos ao ano de 1955. Toda a família está reunida em Vevey, última residência de Chaplin. Jerry Epstein, amigo da família, relata como ocorreu o Natal naquele ano:

Oona e Charlie me convidaram para as festas de fim de ano. Fiquei feliz em ir.
O Natal em Vevey começou uma tradição. Eu passei pelo menos 18 Natais com eles ao longo dos anos. O padrão era geralmente o mesmo. Na véspera de Natal, todos embrulhavam seus pacotes e decoravam a árvore. Quem liderava era Oona, e ela insistiu para que todos nós ajudássemos. Enquanto tudo isso estava acontecendo, Charlie sentava-se na sala de estar, para ler, sempre indiferente. Deprimido pelo Natal, ele pensava que Oona estava estragando as crianças com todos os presentes luxuosos (ele lembra sobre a laranja). Normalmente, o dia depois do Natal ele ficava doente, com um resfriado ou uma gripe.
Neste Natal (1954), ele só queria falar sobre seu próximo filme. Nós dois queríamos falar sobre nossos projetos. Mas às sete da noite, a campainha tocou, e o prefeito de Corsier entrou gentilmente, vestido com uma roupa de Papai Noel. Na América, Papai Noel são geralmente homens gordos, alegres; nosso Noel era alto, magro e sério, e seu traje pendia frouxamente. Ele cantou músicas natalinas em voz de tenor alta. Charlie levou este evento muito a sério e insistiu que todos fossem para o corredor a ouvir. A visita do prefeito tornou-se um ritual anual.
Às 6 da manhã, manhã de Natal, gritos das crianças ecoavam pela casa. Em um fash, todo o papel dos pacotes cuidadosamente embalados foi rasgado. Charlie viria horas depois, após a comoção ter diminuído. Então ele iria abrir os presentes - ficava encantado como um dos filhos, quando ele gostava de alguma coisa. Eu costumo comprar-lhe gravações de velhos artistas ingleses do music-hall ou álbuns de fotos da Londres vitoriana. Ele sempre foi fascinado por tudo o que evoca memórias antigas.
Depois do almoço e de mais champanhe, vimos um de seus filmes. Em torno das as seis horas todos estavam caindo de sono. O que nos ajudou a ficarmos aliviados foi quando saímos para jantar.
Jerry Epstein, Lembrando Charlie, Doubleday, 1989.
Imagem 1 e 2: O prefeito de Vevey e a família Chaplin, em 1955

É intrigante perceber como um ser humano, mesmo com uma vida tão difícil, tendo sido privado de elementos básicos para sobreviver (como comida e moradia), afastado da sua mãe que ficou mentalmente perturbada, teve a capacidade de superar todas as suas dificuldades para divertir tantas pessoas em vários lugares do mundo. Ele de fato encontrou um sentido para que viver. Chaplin é mesmo notável sob diversos aspectos e não é a toa que é considerado um gênio.

Neste Natal, 35 anos após a morte de Charles Chaplin, herdamos um grande legado, deixado por um dos maiores artistas que já existiram e, acima de tudo, uma mensagem de amor, superação, alegria e humanidade, mensagem essa que devemos levar adiante.

Feliz Natal!

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