Narrativas em equilíbrio – o cômico e o drama em Charles Chaplin

Por Everton Luis Sanches

Podemos considerar que Charles Chaplin foi o primeiro a fazer de sua obra cinematográfica uma busca incessante do equilíbrio entre o drama e a comédia, com o intuito de mostrar com profundidade a natureza social dos problemas da humanidade.
Podemos verificar tal busca em toda a sua fluência e intensidade no filme O garoto (The kid, EUA, 1921. Dir.: Charles Chaplin), em que Chaplin declara tal intuito logo no início, com a seguinte legenda: “A picture with a smile – and perhaps, a tear” (Um filme com um sorriso – e talvez, uma lágrima).
Em sua autobiografia ele declarou que foi a partir deste filme que ele descobriu-se um artista. Antes disso, Chaplin concebia-se como um homem buscando a sua sobrevivência através do trabalho com o cinema. Contudo, a partir de O garoto, ele passa a se reconhecer como um artista e, portanto, avançar na elaboração profunda da sua obra de arte. Naturalmente, isso é resultado de todo o processo anterior de trabalho de Chaplin, no qual mesmo não tendo plena consciência disso, o cineasta estava reelaborando partes de seu passado com um senso cômico profundo, distanciando-se cada vez mais da banalidade proposta pelo cinema mudo de Hollywood. Não era apenas o riso que os seus filmes da década de 1914-1920 propunham. Na obra de Chaplin, desde os seus primórdios, podemos identificar a ingenuidade da comédia de costumes evoluindo rapidamente para a sagacidade da crítica social. Neste mesmo rumo, seu talento reelabora o cômico, de modo a verificar o quão importante pode ser para o riso a sua extrapolação ao atingir seu caráter trágico ou dramático.
Na obra de Chaplin, seus personagens transgridem a noção do frágil “pobre de espírito”, inadequado para a sociedade e vitimado pelas circunstâncias, para alcançarem a legitimidade da busca por condições mínimas de sobrevivência e – se possível – a manifestação mais sincera e genuína do amor da humanidade preservado no sujeito que vai à busca de seus sonhos e defende com afinco a si próprio e àqueles que da mesma miséria compartilham.
http://www.youtube.com/watch?v=pZw4v35i4SA

Sobre o Autor

Everton Luis Sanches é Doutor em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2008). Atualmente é pesquisador da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, professor titular do Centro Universitário Claretiano de Batatais e editor da Revista de Educação. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história, comportamento, cinema, teatro e Charles Chaplin.

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