Os tempos de Chaplin: resenha do livro de Everton Luís Sanches

Por Diogo Facini

O professor e pesquisador Everton Luís Sanches é um dos poucos estudiosos de questões relacionadas a Charles Chaplin no Brasil. Sua pesquisa não resumiu ao período de estudante universitário, mas prolongou-se durante os anos de professor, com o início da escrita de obras relacionadas ao célebre criador de Carlitos. A atuação de Sanches se estende também ao Blog Chaplin, do qual ele é um dos colaboradores.

A obra aqui apresentada, “Charles Chaplin: confrontos e intersecções com seu tempo”, é fruto da dissertação de mestrado em História do autor, relacionada com o diálogo entre Chaplin e seus tempos.

O livro é dividido, além de introdução e considerações finais, em quatro capítulos: A Inglaterra e o mundo antes de Chaplin; História de uma personalidade; O cinema de Charles Spencer Chaplin, e O cinema no período entre guerras. Com relação ao último capítulo, são principalmente as obras desse período, entre as duas Guerras Mundiais, as discutidas pelo autor em seu livro. 

O livro apresenta uma abordagem multidisciplinar, que traz principalmente conceitos da História e da Psicologia com o objetivo de, nas palavras do autor, “entender a filosofia de vida de Charlie e estabelecer os confrontos e as intersecções de Charles Chaplin com as principais tendências do período entre guerras.” (SANCHES, 2012, p. 17).
A representação de Chaplin da Primeira Guerra Mundial, "Ombro, Armas" (1928)
O autor busca elementos na sociedade e cultura inglesa do século XIX (a de Chaplin), com formas artísticas anteriores ao cinema importantes, como o teatro, que constituiriam o cineasta e levariam ao seu desenvolvimento pessoal e artístico. No entanto, o estudo não procura apenas observar as influências da história nas suas visões de mundo, mas também refletir sobre como Charles Chaplin se relacionou com seus tempos, como ele agiu sobre eles, até mesmo tentando questioná-los e transformá-los.

Sanches traz também em seu livro reflexões sobre o próprio cinema e seus anos iniciais, uma época em que Hollywood já mostrava poder no mercado cinematográfico e criava seus próprios mitos para a adoração do público. Chaplin iria inserir-se nessa “máquina” de Hollywood; no entanto, conseguiria manter o controle sobre sua obra e dar destaque ao seu trabalho artístico, o que o acabaria por trazer questões importantes, como a sua inicial recusa em adotar o cinema falado.

Como não poderia deixar de ser, é discutido ao longo da obra o clássico personagem Carlitos, e como este personagem bastante complexo trazia uma mensagem de esperança para o público.

Outro ponto importante destacado pelo autor é como a mentalidade e a visão de Chaplin estão relacionadas com os seus próprios tempos modernos, de mudanças rápidas e sucessivas e relativa insegurança, agravada pelas guerras (uma passada e outra iminente), e crises profundas, como a de 1929. Essa insegurança obviamente refletiria na vida e obra do criador de Carlitos, que não passaria imune pelas turbulências.

Uma conclusão do autor é interessante:

(...) O período em que Charlie viveu foi de efervescência de ideias, no qual o cientificismo e a racionalidade – que, por sua vez, deram origem ao modo de vida predominante – estavam sendo postos em debate e a sua credibilidade, perdendo fôlego. Charles Spencer Chaplin não soube articular devidamente um discurso político; entretanto, conseguiu agir de forma politizada, defendendo suas posturas e interesses pessoais. (SANCHES, 2012, p. 144).

Sanches, ao fim, destaca o humanismo do autor, que talvez seja, em sua visão, o fator mais relevante a ser tratado em sua produção (p. 145). De fato, Chaplin ao mesmo tempo inseriu-se em seus tempos, mas não olhou para eles de maneira fria ou insensível, como mera adaptação. Seu olhar, dirigido muitas vezes às populações excluídas e marginalizadas, se não trouxe respostas, disseminou alegria e conforto para o enfrentamento do dia a dia de muitos povos ao redor do mundo.
O humor como elemento de esperança em "O imigrante" (1917)
O livro de Everton Luís Sanches, portanto, é uma produção muito interessante para os interessados tanto na vida quanto na obra de Chaplin, e mesmo para as pessoas interessadas em história, sobretudo o fim do século XIX e começo do XX. Escrito de forma acessível, mas sem perder o rigor necessário a esse tipo de estudo, é uma contribuição importante na bibliografia sobre o cineasta e ator, que deve ser valorizada, ainda mais por se tratar de uma obra escrita originalmente em nosso português, e por um autor brasileiro.

Referências Bibliográficas:

SANCHES, Everton Luís. Charles Chaplin: Confrontos e Intersecções com seu Tempo. Jundiaí: Paco Editorial, 2012.
Capa do livro

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