Chaplin na capa da Revista Show - Parte 1

"A América redescobre o herói".


Com exclusividade, o Blog Chaplin traz a entrevista que Charles Chaplin concedeu à Revista Show, com tradução de Almir Gomes, mestre e doutorando em Linguística.
A matéria é histórica. Foi realizada em junto de 1972, cinco anos antes da sua morte, contando com detalhes como se encontrava um Chaplin já idoso. Cada descrição nos faz sentir em diversos momentos, como se estivéssemos na mesma sala, entre Charlie e Willian Wolf, o entrevistador.

Devido ao tamanho da entrevista, dividiremos a mesma em três partes. Boa leitura!

PARTE I - Introdução
Introdução da Entrevista

A América, às vezes tem sorte. Se Charlie Chaplin tivesse morrido durante as últimas duas décadas, os Estados Unidos ganharia a reputação de ter barrado permanentemente em seu território, um dos grandes cineastas do século 20. "Eu sou mais velho do que Deus," Chaplin diz agora na idade de 83 anos, e sua vida à uma idade madura deu a América uma oportunidade para pelo menos fazer algumas correções na maneira como ele foi tratado.

Os elogios para o retorno de Chaplin já acabaram. Ele foi homenageado com brinde, vinho, jantar e até mesmo premiado no Oscar. O que pode ser menos dramático, mas no longo prazo, irá revelar-se mais significativo, é que suas longas metragens estão recebendo uma nova rodada de exposição ampla. Uma nova geração, muitos dos quais, embora cinéfilos, não viu as maiores obras de Chaplin, está olhando para eles agora - Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Monsieur Verdoux. Fãs antigos estão reafirmando sua crença de que a arte de Chaplin é do tipo que perdura para além da mera evolução da moda no mundo do cinema.

Quanto ao próprio homem, o público se choca ao renovar a experiente familiaridade com ele. Ainda ágil no humor e capaz de falar de maneira incisiva sobre seus filmes, ele demonstra, contudo, os sinais da idade. "Minhas pernas não são mais tão boas agora", diz ele sobre suas pernas, ele muitas vezes tem dificuldade para lembrar, fala pausadamente, se cansa facilmente, "deve dormir bastante", e, geralmente, anseia por tranqüilidade. No entanto, Chaplin também alimenta o desejo de fazer outro filme. Ele mostra entusiasmo ao descrever o que ele quer fazer, mas há também dica de que o reconhecimento de seu trabalho pode ter que ficar no que foi realizado até agora. Ele está seguro no conhecimento de que seus filmes pertencem ao mundo no espírito, se não em termos financeiros. Ele é conhecido por ser um negociador duro quanto aos filmes que ele controla. "Só muito recentemente é que eu permiti que meus fossem exibidos tanto quanto eu poderia", o reconhece. "Quando eu morrer, eles serão algo para deixar para os meus filhos."


Eu experimentei uma pre-estréia do Chaplin que a América encontrou em seu retorno triunfal, em abril. Quando nos sentamos pouco antes de sua viagem na extensa e de teto alto sala de estar, da sua casa, em Manoir de Ban, em Vevey, na Suíça, eu ponderei o choque que o público teria ao ver em primeira mão o que teria acontecido com o amado vagabundo. No caso de Chaplin, a idade faz um particular triste contraste. Ele era conhecido na tela por sua agilidade surpreendente e magnífica destreza com que ele pudesse fazer seu corpo fazer qualquer coisa necessária para um giro engraçado ou um gesto comovente. "Às vezes eu me pergunto como eu mesmo fiz algumas dessas coisas", ele riu durante as duas horas de nossa conversa. Era fascinante vislumbrar isso em termos de movimentos bruscos de gestos que permanecem à sua disposição. De repente, no meio da conversa, ele estalaria os dedos, palpitaria seus ombros, ou dramatizaria uma coisa, e a inundação de memórias de Chaplin velhos tempos voltavam.


Nossa conversa variou de seus filmes às suas atitudes em relação aos membros da sua família, e contou sobre a situação política que fez-lhe “exilar-se” dos Estados Unidos. Aqui você encontra o que Chaplin tinha a dizer sobre uma variedade de assuntos.


continua...


Parte 2

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