Chaplin por Truffaut




"Charlie Chaplin é o cineasta mais célebre do mundo, mas sua obra quase se tornou a mais misteriosa do cinema. À medida que expiravam os direitos de exploração comercial de seus filmes, Chaplin proibia a distribuição, escaldado, convém esclarecer, por inumeráveis reedições piratas, e isso desde o início de sua carreira. As novas gerações de espectadores que chegavam só conheciam O garoto, O circo, Luzes da cidade, O grande ditador, Monsieur Verdoux, Luzes da ribalta de ouvir falar.

(...)

Durante os anos que precederam a invenção do cinema falado, pessoas no mundo inteiro, principalmente escritores e intelectuais, zombavam e desdenhavam do cinema, no qual viam apenasa uma exceção, Charlie Chaplin - e compreendo que isso parecesse odioso a todos aqueles que tinham visto com atenção os filmes de Griffith, Stroheim e Keaton. Foi a polêmica em torno do tema: o cinema é uma arte? Mas esse debate entre dois grupos de intelectuais não dizia respeito ao público, que, por sinal, não se questionava sobre o tema. Com seu entusiasmo, cujas proporções são difícies de imaginar hoje - seria preciso transferir e estender o mundo inteiro o culto prestado a Eva Perón na Argentina -, o público fazia de Chaplin, no momento em que terminava a Primeira Guerra Mundial, o homem mais popular do mundo.
Se fico maravilhado, cinquenta e oito anos depois da primeira aparição de Carlitos na tela, é porque vejo nisso uma grande lógica - e nessa lógica, uma grande beleza. Desde seus primórdios, o cinema foi feito por pessoas privilegiadas, ainda que não se tratasse, até 1920, de praticar uma arte. Sem repetir o refrão, famoso desde maio de 1968, a propósito do "cinema burguês", gostaria de observar que sempre houve grande diferença, não apenas cultural, mas biográfica, entre as pessoas que fazem os filmes e as que a eles assistem".*

*O prefácio de François Truffaut encontra-se no livro Charlie Chaplin, de André Bazin pela Editora Jorge Zahar. Eis um fragmento dele:

Veja mais:

Charlie Chaplin, de André Bazin - Jorge Zahar Editor


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