A solidariedade de Carlitos e o sentido de existência


Por Everton Luís Sanches*


Recentemente em meu trabalho “Os desafios da interdisciplinaridade e a construção de sentido na contemporaneidade”, por ocasião da realização de meu pós-doutorado, tratei da atribuição de sentido na atualidade e relacionei o personagem Carlitos de Charles Chaplin como exemplo. Gostaria nesse momento de compartilhar de maneira simples alguns resultados de minha pesquisa. 

Vivemos um período bastante conturbado. Toda semana temos notícias de alguém em alguma parte do mundo demonstrando sua insatisfação com a vida e sua falta de sentido de existência com ataques armados, atropelamentos voluntários e diversas formas de desvalorização pura e simples da vida. Para além das doutrinas fundamentalistas que mantém seu credo além-mundo - e no limite incluindo-as devido à sua falta de esperança na vida material - a mensagem que fica, oferecida de diferentes formas, é que viver não vale a pena e que a ilusão dos que vivem nesse descaminho contínuo deve acabar, para que diante da tragédia evidenciadaalguém tome alguma atitude a respeito. Consumo desenfreado e insatisfação com a própria aparência, com a condição social, com o poder aquisitivo, vida em família, relacionamentos etc. tornam a vida um fardo cheio de vazio; e nem as crenças religiosas ou o ateísmo humanista conseguem retomar o sentido das coisas. As atitudes tomadas para combater tais infortúnios configuram mais violência e mortes, quando não guerras, e nada substancialmente muda. A isso chamo de falta de sentido de existência no contexto atual.

A pergunta que faço é: como interromper esse ciclo de negação de sentido da vida, em que alguns morrem enquanto outros apenas sobrevivem sem saber o porquê? Para responder recorro ao personagem Carlitos.

No filme Luzes da cidade(1931), Carlitos salva milionário bêbado do suicídio.
O personagem de Chaplin vive entre as mais diversas mazelas que a pobreza pode proporcionar, tais como a fome e a violência, mas segue adiante. Se por acaso retirássemos todos os recursos cômicos utilizados em seus filmes, eles seriam tão densos e cruéis que talvez ficasse inviável assisti-los. Contudo, a comédia de Chaplin - que podemos tratar como comédia do sensível - remonta à felicidade de viver “apesar de”.

No filme Luzes da cidade (1931), Carlitos interage com a florista cega.
Essa felicidade se estabelece em suas tramas principalmente através de gestos de carinho: sua parceria com um cão (Vida de cachorro, 1918), seus cuidados inesperados com um órfão abandonado (O garoto, 1921), seu flerte acompanhado da gentileza em ceder o seu pouco dinheiro a uma desconhecida paupérrima como ele próprio (O imigrante, 1917), o esforço obstinado por construir um lar e nunca desistir (Tempos modernos, 1936) ou sua contenda entre um homem rico e deprimido que quando bêbado reconhece nele o único amigo e uma vendedora de flores cega que precisa de uma cirurgia para voltar a enxergar (Luzes da cidade, 1931). Podemos considerar que os vínculos fraternos, a solidariedade diante da adversidade a fim de enfrenta-la correspondem ao sentido de ser de Carlitos.

Filme O imigrante (1917).
O “apesar de” é acompanhado pela profundidade dessas relações que Carlitos estabelece. Rompendo as divisões tradicionais entre bem e mal, certo e errado, assim como as distinções sociais que separam as pessoas e cerceiam os desventurados, o personagem transcende o mero aspecto lúdico das tramas de Chaplin e abrange o humano integrado transversalmente pelas mazelas e glórias simples do cotidiano espúrio e profano. As divisões de grupos, classes, ideias e origens são desfeitas diante do prático desejo de viver e realizar-se.

Filme Vida de cachorro (1918).

Filme O garoto(1921).
Poderíamos inclusive pensar na mesma proporção a produção do próprio conhecimento científico e seu esforço para compreender a produção de Chaplin: interdisciplinar, transversal e orientado a entender mais que simplesmente o cinema, um filme, a indústria cultural ou a linguagem imagética; disposta sobretudo a traçar o alcance humano, suas falhas, virtudes e os novos caminhos possíveis.
No filme Tempos modernos (1936), em busca de novos caminhos.

Se o próprio fazer científico às vezes esvazia-se de significado é porque as divisões atuais entre as diversas áreas de conhecimento mantiveram a sua produção vinculada a nichos de mercado, rompendo com o seu sentido original, que é o avanço da sociedade como um todo - não a venda de produtos e serviços. A contribuição fraterna entre diferentes caminhos de entendimento dos fenômenos que envolvem a vida humana acabou sendo suplantada pela competição de intelectuais por financiamentos para as suas pesquisas. As diversas ciências andando de mãos dadas: esse é o caminho da inovação, tal qual Carlitos faz ao enfrentar os seus desafios.

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*Everton Luis Sanches é Professor no Centro Universitário Claretiano. Tem Pós-Doutorado em História e Cultura Social

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